quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Amor que não veio



O amor que não veio…

se acaso penso em ti, me inquieta o pensamento…
por que havias de vir assim tarde demais?
bem que eu tinha de há muito um cruel pressentimento,
– e há sempre um desespero em nós,
se num momento
desejamos voltar a vida para trás…

neste instante imagino o que teria sido
o meu vago destino desorientado,
se antes, eu já te houvesse um dia conhecido,
a esse tempo, meu Deus!...— e esse tempo perdido
pudesse ao teu convívio ter aproveitado!

não há nada entre nós, nada… e em verdade há a vida
que nos chama e nos prende!… e já agora imagino
que aqui estás ao meu lado a ouvir-me comovida
e me entregas a mão, — e entrego-te vencida
a minha alma, — e com ela todo o meu destino!

não há nada entre nós, — mas se nos encontramos
ouvirás de hoje em diante um poema onde tu fores,
– trouxemos o destino estranho de dois ramos,
separados, — que importa? ainda assim nos juntamos
confundindo as ramagens, misturando as flores…

e eu nem te vi direito! um olhar sob um véu,
(há qualquer coisa estranha num olhar velado…)
– um olhar, — não direi que em teu olhar há um céu,
quando sei que afinal há tanta angustia e fel
em tudo o que me tens da vida revelado!

acompanhei-te o vulto um segundo, alguns passos,
nada mais, e no entanto, se quiser pensar
sou capaz de te ver, (há gestos nos espaços,
e guardei a visão dos teus braços, — teus braços
guardei-os, como dois clarões dentro do olhar!)

e devem ser macias as tuas mãos, — não ouso
pensar no que elas guardem nos seus finos dedos,
– pensando em tuas mãos, penso em sombra, em repouso,
num lugar quieto e bom, e num vento amoroso
a soprar entre as folhas múrmuros segredos…

mas… que saibas perdoar estas coisas que escrevo,
pensei-as a escutar distante a tua voz,
e há algumas coisas mais, que a dizer não me atrevo,
é que escrevo demais, e não posso, e não devo,
e não tenho o direito de falar de nós…

(J.G. de Araújo Jorge)


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